“Deixemos a arte ressoar como um conto de fadas e ser um lar em qualquer parte. Deixemos que ela trabalhe com o bom e o mau, assim como o fazem as forças eternas. E, para os homens, que ela seja como um feriado, uma mudança de atmosfera e de ponto de vista, transporte-os para um espetáculo lúdico, para que eles possam retornar à vida de todos os dias com renovada vitalidade” Paul Klee

Perry 3 – Filho (4/4)

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O terceiro afazer

O dia ainda estava nascendo como nasce o homem: inocente. A luz ainda era virgem e mal tocara o solo. As cores eram pálidas e suaves. Perry ainda era uma criança atrás de uma aventura.

Olhou para o farol que ainda girava sua velha luz vinda da noite. Lá estava seu destino. Sabia que quando chegasse lá não teria nada mais a fazer. A maré estava baixa e o mar acalmara bastante. Ainda assim seria perigoso, haviam pedras pelo caminho, talvez animais perigosos que nadavam naquela enseada, o movimento das águas que podiam fazê-lo afundar e o afogar. Mas Perry não sentia medo. Sabia sim de todos os perigos, mas o que importava era seu destino. Seu sonho. Sua luz no fim do caminho.

Abriu sua mão e a olhou. Lá estava o anel e o bloco com sua história. O bloco não poderia carregar consigo, era demais para onde iria, deveria deixar para trás tudo o que era passado. Deitou-o na areia. O anel colocou-o em seu dedo anular, para que não caísse enquanto nadasse. Estava pronto.

Andou em direção às águas. A primeira onda tocou a sola de seus pés. Sentiu o primeiro obstáculo: a temperatura da água. Parou por um momento, mas não muito longo. Continuou.

A profundidade foi engolindo Perry. Tomou-lhe as pernas e chegou ao peito, quando ele se tacou de vez e pôs-se a nadar. Estava imerso em sua estrada.

O mar que parecia calmo e tranqüilo visto de fora, estava se agitando. Perry sentia ser empurrado e puxado pelo movimento de pequenas ondas. Seu corpo era a vítima do oceano, porém por mais que quisessem, as águas não tirariam tudo de Perry, seus sonhos.

As ondas foram ficando mais bravas, o cobrindo de vez em quando. Mas não tirou nem por um segundo os olhos do farol.

Parou por um momento.

Viu algo que não havia antes no topo ao lado da luz: um vulto branco, com um vestido que balançava longe com a brisa lá do alto. A luz do farol quando passava pelo vulto o fazia cintilar.

Sentiu a aliança em seu dedo esquentar levemente, e o dedo formigar. E voltou a nadar. Por mais que as ondas o forçassem a desviar e a percorrer um caminho cheio de curvas e desvios, Perry não desistia de seguir em frente e não olhou para trás uma só vez.

Estava na metade do caminho, no ponto mais profundo da travessia. Quando alguns movimentos sob seus pés o chamaram a atenção. Olhou em volta e viu sombras gigantes passando por baixo de onde nadava. Eram disformes e algumas de formas muito assustadoras. Mas não se podia saber o que eram.

Houve um gelar na espinha. Perry sentiu o medo tentar dominá-lo. E se aquelas coisas fossem monstros prontos para devorá-lo? Seria facilmente pego assim? Haveria saída? Teria chances de enfrentar as sombras? Como poderia enfrentar os perigos que o cercavam? Só havia uma solução: não ter medo.

E Perry percebeu, que enquanto o medo que crescia dentro de si, as sombras sob seus pés também aumentavam. Quanto maior o medo, maior o problema é para nossos olhos. Quanto maior o medo, menor é o domínio sobre nós mesmos.

Reagiu. As braçadas que tinham se tornado frágeis, enrijeceram. As pernas voltaram com toda a firmeza a bater contra a água, e Perry só pensou no farol. E as sombras marinhas se reduziram e ficaram para trás. E o farol muito mais perto. Chegou até as pedras onde o mar batia de leve. Pode subir com tranqüilidade, apesar de cansado, até a rocha base do farol.

Olhou para cima. A luz incansável que girava no topo não apontava mais para ele, mas para o mundo. Sentiu que havia chegado onde ninguém antes havia posto os pés. Onde a luz nasce. Lá em cima o tecido branco do vulto ainda ondulava pelo ar, era uma mulher de cabelos castanhos, quais faziam o mesmo que o vestido comprido.

A porta à sua frente estava semi-aberta. Como todas as oportunidades em nossas vidas. As portas nunca estão trancadas, sempre nos aparecem semi-abertas, somos nós quem decidimos se queremos passar, abrindo-a de vez, ou fechando-a para sempre. Entrou.

Sentiu-se absorto na escuridão do ambiente sem janelas. Mas por dentro, o sentimento era de euforia, paixão, e dedicação. Afinal, se entregara de corpo e alma àquilo, não importava mais nada, apenas o bom sentimento.

Com os olhos se acostumando à baixa iluminação, percebeu aos poucos uns feixes de luz vindos do alto, e a forma de uma escada em espiral se revelou. Tateou e encontrou o primeiro degrau. Subiu. Encontrou o segundo. Subiu. E continuou passo a passo, se entregando à luz crescente, conforme subia até o seu destino. Seu coração palpitava.

Perry passou da mais profunda treva para a mais absorvente luz a cada degrau que escalou e sentiu isso por dentro. Até que chegou ao branco. Tudo mudou.

À sua frente estava a mulher com o mais belo dos sorrisos no rosto, sua suave mão acariciava seu ventre volumoso sob o vestido branco.

Perry sentiu a transformação em seu coração. Sua vida fez sentido. Sua felicidade fez-se infinita e seu corpo foi entregue.

Teve um passado deixado na areia, uma consciência enraizada em sua mente, e uma medalha carregada no peito. Pôde descansar na paz.

Agora a luz era Perry e Perry era a luz.

[texto e ilustração por Paulo Roberto Alonso]

Perry 3 – Árvore (3/4)

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O segundo afazer

Aquela noite Perry viu o farol acender-se. Não estava longe, mas o mar quebrava nas pedras, seria perigoso chegar lá. Mas sabia que na maré baixa iria com certeza. Aquele farol o instigava! De alguma forma o queria e ele sabia disso. Aguardou na areia, satisfeito consigo mesmo, por ter descoberto tanto de alguém com quem nunca teve tempo de conversar.

A lua cheia começou a nascer. E Perry sentou-se para assistir. Seu interior vibrou, pois nunca havia visto algo tão belo em toda a sua vida. O brilho que ela produzia era multiplicado pelo espelho do oceano. Era uma imensa bola de cristal, que irradiava toda sua inspiração aos poetas da vida.

E Perry lamentou. Em toda a sua vida, quantas vezes perdeu a oportunidade de observar o céu noturno ou qualquer outra paisagem, por coisas idiotas, por afazeres inúteis que hoje já não valem mais nada. Deixou de observar as estrelas do céu para ver as estrelas da televisão. Deixou de observar a lua, para ficar em baixo das cobertas. Deixou de ver aquela paisagem maravilhosa na estrada, pois teve pressa de chegar. Quantas vezes não paramos pra observar simplesmente por coisas fúteis?

Debaixo daquele luar, Perry abriu sua mão. Lá estava a semente e o anel. A semente lhe chamou a atenção, pois não tinha forma conhecida. Pensou em todo o passado da semente. No que ela trazia dentro de si e no potencial que ela tinha pra ser. A natureza á sábia. É paciente. E tudo o que ela faz é pensando num futuro, um futuro muito distante. Porque pra ela, o hoje é uma passagem, é uma travessia.

Perry pegou a semente e fechou a mão em torno dela. Estranhamente ela tinha a forma de um feto. Parecida com um feijão, só que maior, quase do tamanho da palma de Perry. Quando a embrulhou com seus dedos, sentiu um estremecimento na mão, que irradiou pelo seu braço e inundou seu corpo. Sentia suas veias incharem de alegria e força. A semente havia brotado.

Deixou-se cair na areia. Pasmo, ainda segurando a semente em sua palma. Agora com força. Aos poucos foi se encolhendo, abraçou os joelhos e ficou naquela posição por um bom tempo, iluminado pela lua.

Fechou os olhos.

E então se sentiu como uma pedra. Não podia mexer qualquer músculo que fosse. Estava escuro. Estava úmido. Sua pele sentia a maciez em volta. Essa maciez o deixava inquieto, cheio de energia e ansioso. Queria externar-se, queria se abrir. E a terra em volta o envolveu com sua energia.

A força vinda de fora o agitou, e esse leve estremecimento provocou uma ruptura. Foi quando Perry nasceu. Sentiu sua força vital sair de seu interior e se ramificar para fora de si. Sentiu-se espalhar e romper a casca. Aos poucos foi se abrindo, crescendo. De repente viu que a terra cedeu, e foi num estalo que Perry alcançou o ar e pode respirar.

O frio foi aquecido e o calor acariciou as costas de Perry. Quando se virou para a luz, abriu bem devagar os olhos. E foi então que se viu na praia olhando para um céu rosado e completamente manchado de cores quentes cintilantes. A brisa soprava com carinho e o sol nascia. O maior espetáculo da terra.

Perry sentiu algo na mão. Era a semente. Virou para o lado, cavou um buraco na areia e a plantou. Perry compreendeu então sua relação com a natureza. Filho dela e pai dela.

Olhou para o farol. Era pra lá que iria.

 

[texto e ilustração por Paulo Roberto Alonso]